UNIVERSO DO HAICAI


VOLTA

BATE-PAPO


UH - Qual seu nome?

Meu nome completo é Regina Célia Bostulim Correia, e meu nome literário é Regina Bostulim. Escrevi também sob o pseudônimo Laura Maar, através do qual publiquei o livro de hai-kais e poemas "Mulheres de Bali" (1996). Com este pseudônimo também pintei quadros durante o período 1995-1997. Este pseudônimo é uma homenagem a uma das mulheres de Pablo Picasso, Dora Maar. Ela foi muito humilhada e reprimida pelo marido, como quase todas as mulheres dele. Como "Mulheres de Bali" é um livro sobre sentimentos femininos, decidi usar este nome no livro. Porém na contracapa está explicado que Laura Maar é pseudônimo de Regina Bostulim. Usei outros pseudônimos em concursos. Ainda não tenho um nome de haicaísta. Assino sempre como Regina Bostulim.

UH - Quando começou a compor Haicais?

Comecei a escrever em 1977 e publiquei o primeiro livro de poesia em 1984. O meu primeiro livro de hai-kais foi meu terceiro livro. Antes já fazia uns tercetos, mas comecei a compor hai-kais a partir de um curso de hai-kai que fiz com Alice Ruiz. Acho que em 1991, se não me engano. Em 1992, publiquei o meu primeiro livro de hai-kai, que foi "Mar na Caverna", onde estão vários hai-kais que fiz nesta oficina. O nome foi sugerido por Alice Ruiz, aparando as arestas do nome original que eu tinha pensado, que seria "O mar numa caverna", que é um termo tirado de um dos hai-kais do livro.

UH - Qual o seu primeiro Haicai?

Tenho um antigo caderno daquela oficina, que está entre meus guardados. Lá deve ter exatamente qual o primeiro hai-kai que escrevi, o qual não me recordo agora. Mas o primeiro que provocou uma repercussão, foi um hai-kai sobre chuva. Lembro que a própria Alice Ruiz ficou espantada com este hai-kai. Suas palavras foram "senti este hai-kai". O hai-kai é assim:

chuva de eucaliptos
varrendo a rua
solitário blues

UH - Qual foi o primeiro premiado?

Raramente participo de concursos, e na verdade, todos os meus livros tiveram uma tiragem pequena, e foram distribuídos somente em Curitiba. Com exceção de alguns enviados a amigos em outros estados e alguns em bibliotecas na Rússia, onde fiz um curso de verão. Mas em 1994, três de meus hai-kais foram premiados no Concurso Nacional Helena Kolody.

lábios úmidos
roçam hálitos
mar na caverna

rendeiras teciam
canções de sal
dentro das ondas

mar revolto
grito de pássaro
esplendor tem asas

UH - Qual o seu Haicai preferido?

É sempre o mais novo. Mas um de meus favoritos é:

TRAMAS DE MERGULHADOR SELVAGEM II

mar de pescadores de pérolas
e florestas submarinas:
a faca sob o coral

UH - Cite um Haicai que gostaria de ter escrito?

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se: "Agora".

Guilherme de Almeida

UH - Cite um haicaísta e um de seus Haicais.

Vou colocar uma transcriação minha, de meu livro "A capa de palha do barqueiro", em que crio em cima de poemas dos chamados "quatro grandes" haicaístas: Bashô, Buson, Issa e Shiki.

digno de se admirar
aquele que frente ao relâmpago
não diz: a vida escapa

Matsuô Bashô

UH - O que é o Haicai?

Uma definição mais simples seria a de que o hai-kai é o menor, e ao mesmo tempo o maior poema do mundo. Menor no sentido de tamanho e maior no sentido de profundidade e poder de síntese. A definição clássica seria a de que o hai-kai é uma das sete artes zen. Então uma das condições para o hai-kai seria ater-se a esta estética zen. O hai-kai clássico seria aquele que além de ater-se à estética zen, teria de estar de acordo com 99 regras, a primeira das quais seria a "supressão do eu". Quanto à forma, teria 3 versos, de 5-7-5 sílabas poéticas japonesas. Daí uma das primeiras discussões acerca de hai-kai, se o hai-kai em outras línguas deveria ater-se a esta métrica ou não. Em inglês, um hai-kai com 5-7-5 seria longo, ao passo que em japonês seria mais curto.

Minha primeira mestra, Alice, ensinou-me que mais importante do que seguir rigidamente esta métrica de 5-7-5 versos em português seria ater-se ao "espírito do hai-kai". Não necessariamente o zen no sentido de zen budismo, mas o zen no sentido de se abrir à vida, e de captá-la com respeito. Não me atenho à métrica 5-7-5, pois acho que não há sentido em fazer-se uma métrica 5-7-5 em português, já que a regra foi feita para o idioma japonês.

Também não me atenho ao zen no sentido de zen budismo. Me atenho a meu próprio sentido de zen, que seria uma espécie de zen caboclo. O caboclo não compraria um livrinho com nomes de bichos e plantas para escrever um hai-kai pré-fabricado. Ele respeitaria o bicho e a planta, a conheceria, saberia que em tal mês é tempo desta fruta, e que em tal mês os bichos procriam. É uma sabedoria natural e rústica, intuitiva.

Aprendi e li bastante sobre o hai-kai antes de me aventurar a jogar as regras no lixo. Mas acho que muitos nunca aprenderam regra nenhuma e escrevem maravilhosos hai-kais. Já nasceram com o dom. Um exemplo desses poetas intuitivos, era Batista de Pilar, um poeta que foi catador de lixo e mendigo. Jamais tinha feito um curso de poesia, jamais tinha lido um livro sequer de poesia. Mas foi um dos melhores poetas de sua geração no Paraná.

Acredito que poesia tem muito do que o pintor Miró fazia. Ele aprendeu todas as técnicas, para depois refugá-las todas e pintar com a mão esquerda, que era a que ainda continuava virgem de toda aquela aprendizagem. Em poesia, pelo menos para mim, muita teoria só serve para atrapalhar. Chega um ponto em que é preciso deixar a teoria de lado e buscar dentro de si a intuição, a criatividade, a imaginação e até, por que não, a inspiração.

Em meus hai-kais não sigo nada senão puro instinto. Tento capturar o instante, que para Octávio Paz seria um relâmpago, para Mário Quintana um gole de água bebido no escuro, e para Guilherme de Almeida um gosto de amora. Não sigo regra nenhuma, também não tento seguir uma certa musicalidade, e principamente não faço hai-kais por encomenda ou pressão editorial.

UH - Um nome masculino no universo haicaístico brasileiro.

Ops, não entendi se poeta vivo ou poeta morto, mas minha escolha é Paulo Leminski. Nunca falei com ele, e só o vi uma vez, de longe. Quando fui aluna de Alice Ruiz, em 1991, Leminski já tinha falecido. Na época apesar de saber alguns de seus poemas de cor, não conhecia sua obra, até que há tempos atrás decidi lê-lo mais e acabei me surpreendendo com suas muitas faces. Desde então minha admiração só cresce com o decorrer dos anos.

UH - Um nome feminino.

Alice Ruiz. Foi minha primeira mestra de hai-kai, é uma das pessoas que mais admiro, não só pela sua obra literária, como pela sua generosidade e grandeza de alma.

Antônio Seixas
29 de janeiro de 2005.