UNIVERSO DO HAICAI


VOLTA

A FOTOGRAFIA E O HAICAI


Interessante pensar na similitude da fotografia e do Haicai. Ambos são processos de fixação de um momento único, existencialmente falando, sem enfeites ou processo lógico. Nesse sentido, o fotógrafo e o haicaista são capazes de reproduzir um gesto colhido no momento de sua execução, enquanto que o olhar desatento da maioria não pode imobilizá-lo.

No captar de um momento de transitoriedade, na fotografia e no Haicai temos uma verdadeira imobilidade viva, onde o objeto neles registrado respira, pulsa, existe, mas nos limites da obra.

Essa imobilidade viva da fotografia e do Haicai recai sobre o "disparo" passado, onde por mais breve que tenha sido, a coisa real ficou imóvel diante do olhar contemplativo do seu observador. Assim, a imobilidade é como que o resultado de uma fusão entre dois elementos: o real e o vivo. O indispensável, portanto, é que o observador tenha visto o referente (objeto) para registrá-lo. Conclui-se, com isso, que não são artes de gabinete.

Imagino que o gesto essencial do fotógrafo e do haicaista é surpreender alguma coisa ou alguém e, que esse gesto será perfeito, quando se realizar sem o conhecimento do objeto registrado.

Em ambos, o importante é o registro de um pormenor, não intensional. Ele encontra-se no campo da coisa registrada como suplemento inevitável. Revela que o observador não poderia registrar o objeto parcial ao mesmo tempo que o objeto total, limitando-nos a uma fração da realidade.

Com o registro, temos que o objeto observado esteve em seu lugar de execução e hoje encontra-se eternizado na fotografia ou no Haicai. E esse registro se mostrará nitidamente perfeito quando for observado pela maioria com indiferença, como coisa evidente.

Não podemos nos esquecer, por fim, que há uma diferença clara entre a fotografia e o Haicai: a imagem fotografada está fechada em si, objetivamente, ao passo que o Haicai apresenta uma carga de subjetividade, vez que no poema, a emoção ou a sensação sentida pelo autor, deve ser apenas sugerida a fim de permitir ao leitor o re-criar dessa anotação, para que possa concluir, à sua maneira, o poema apresentado. Assim, o Haicai não deve ser discussivo e acabado, como uma fotografia.

Antônio Seixas
Outono de 2004.