UNIVERSO DO HAICAI
As Estações de Eunice Arruda
No Brasil, o reconhecimento do Kigo (termo-de-estação) exige uma autêntica reeducação dos sentidos para podermos perceber a sua existência e o seu papel como disparador de sensações no homem, em razão das dimensões continentais do território brasileiro.
"Quando estamos onde estamos, há estações". Com essa afirmação, a haicaista Eunice Arruda, em seu novo livro "Há Estações" (São Paulo, Ed. Iluminuras, 2003, 57 p.), nos convida a contemplarmos a natureza ao nosso redor, seja ela rural ou urbana, procurando extrair dela os elementos característicos e peculiares a cada estação do ano. A própria autora nos brinda com verdadeiros achados, como estes:
Manhã de abril
O vento tenta enxugar
as roupas no varal
A autora, expoente da chamada "Geração 60", nos apresenta pouco mais de uma vintena de poemas, frutos de experiências trocados no seio do Grêmio Haicai Ipê (SP), após ter tomado contato com o Haicai nas diversas oficinas literárias que já organizou.
Prefaciado por Teruko Oda, professora e também integrante dos Grêmios Haicai Ipê e Caminho das Águas (este de Santos/SP), "Há Estações" é um convite ao leitor a contemplação do meio, a partir dos objetos haicaisticamente fotografados pela autora, a exmplo destes:
Verão. Meio-dia
Na sombra de uma nuvem
o boi cochila.
Solidão no inverno
O velho aquece as mãos
com as próprias mãos.
Sobre a folha seca
a formiga atravessa
uma poça de água.
Escolhido, este ano, pela Secretaria de Educação do Estado de São paulo para ser distribuido gratuitamente as escolas públicas de Ensino fundamental, demonstram às autoridades educacionais seu reconhecimento ao Haicai e à poética de Eunice Arruda. Nossos mais sinceros votos de sucesso à autora.
Antônio Seixas
Outono de 2004.