UNIVERSO DO HAICAI
Um relato minucioso de Lena Jesus Ponte sobre
a história do Haicai na terra de Araribóia.
Em 1993, em conversas com o poeta Luís Antônio Pimentel, tomei contato efetivo com um tipo de poesia da qual só tinha conhecimento superficial: o haicai. Pimentel, que já havia estudado e trabalhado no Japão na época da Segunda Grande Guerra, contribuiu para difundi-lo em Niterói. Avesso à prolixidade e à eloqüência, publicou, em 1953, o livro Tankas e Haikais, no qual se encontra a essência dessa poesia nipônica – espírito de síntese, captação sensorial da natureza, expressão de um instantâneo poético: Lento, um vagalume, / Qual uma agulha de luz, / Alinhava a treva...
Fiel à métrica rigorosa de 5-7-5 sílabas poéticas, Pimentel tem ampliado, porém, de maneira ousada, o espectro temático do haicai para além da Natureza e das quatro estações, cerne do haicai japonês tradicional. Encontramos, em seus versos, crítica social, lirismo, reflexão filosófica, erotismo... Chegou, mesmo, a compor uma geografia poética fluminense, com haicais descritivos de importantes municípios do Estado do Rio de Janeiro.
Outro escritor que também transitou por essa forma poética foi Jacy Pacheco. Em 1981, no livro Haicais, publicou setenta e quatro desses micropoemas, entre líricos e engajados. Nessa obra, o falecido poeta rendeu tributo àqueles que considerava modelos de haicaístas: Mestres do haicai? / Luís Antônio Pimentel, / Lyad de Almeida.
Lyad, deixando-nos no ano de 2000, para tristeza de seus leitores e amigos, legou-nos uma obra extensa, permeada de filosofia e lirismo: Ah! Esta insistente / saudade. Tão insistente / Que é uma presença.
O poeta e publicitário Paulo Roberto Cecchetti divulga, de maneira sistemática, esse gênero de poesia, não só em seus livros mas também na revista O Cais, da qual é editor. A muitos de seus haicais atribui títulos. Costuma, em alguns deles, prestar homenagem a intelectuais, músicos, pintores e escritores. A seguir, um exemplo, em que alude à figura máxima do mestre do haicai japonês: BANANEIRAS – Secam, ao relento, / as folhas das bananeiras: / releio Bashô.
Moacyr Sacramento também se deixou enfeitiçar pela poesia japonesa: Na vida, poeta é / fermento: seu pensamento / faz crescer a massa. Em vários de seus textos, utiliza um esquema de rimas da segunda com a sétima sílaba no segundo verso.
Unindo haicais a um estudo-síntese sobre o budismo, o médico Vinicius Sauerbronn de Mello escreve haicais meditativos: Escutar em paz / o que diz a voz dos ventos / é sabedoria.
Poetisa da delicadeza, Neusa Peçanha encontra, no “menor poema do mundo”, uma forma cristalina de externar poeticamente sua sutil sensibilidade: O bonde da praça / entre balanços vadios, / é brinquedo triste.
Dois escritores perceberam e expressaram as semelhanças entre trova e haicai (a concisão, o uso da redondilha, o caráter popular): Sandro Pereira Rebel e Maria Apparecida Picanço Goulart. Em Lampejos, Sandro estabelece um paralelo entre os dois tipos de poesia. Já na introdução, apresenta uma trova (Meus versos somente almejam, / como simples pirilampos, / ser luzinhas que lampejam, / sem destino, pelos campos) e um haicai (A vida é lampejo: / o fim começa a acabar / no próprio princípio), unidos pela temática geral expressa no título do livro. Apparecida, em seu sugestivo Mutações, declara: “Ocorreu-me partir do verso de sete sílabas do haicai e chegar à trova”. Um exemplo: Brumas no caminho, / lua querendo brilhar, / e quem vencerá? metamorfoseia-se em Quando há brumas no caminho, / lua querendo brilhar, / a luz chega de mansinho / e faz a Terra encantar.
Em 1999, Leda Mendes Jorge publicou um livro de haicais em sua maioria contemplativos da natureza: De manhã bem cedo, / garnisé esganiçado / desafina o dia.
Poeta estudioso desse tipo de poesia, Douglas Eden Brotto estabelece uma ponte cultural com os haicaístas do Grêmio Haicai Ipê, de São Paulo. Sob o pseudônimo de Guin Ga Eden, tem poemas publicados em antologia do Grêmio (De novo na estrada, / Os dias vão se alongando... / E meus pés mais trôpegos...) e nas páginas virtuais da Revista Caqui.
No ano de 1997, publiquei Estações Interiores (no qual organizei meus haicais em quatro estações, não climáticas, mas subjetivas: contemplação, lirismo, crítica e reflexão) e, em 2000, Na Trança do tempo (em que procurei associar a linguagem verbal à fotográfica, unindo meus textos a fotografias de Raquel Ponte). Desse último, o exemplo seguinte: A ave pousa suave / na poesia. Em alvoroço, / as palavras voam.
Alguns outros escritores que nasceram e/ou atuam em Niterói seduziram-se, esporadicamente, pelo universo do haicai, a exemplo de Alda Corrêa M. Moreira, Bernadete Soares, Branca Eloysa, Edel Costa, Elen Felix, Marilena Gomes Ribeiro, Olga dos Santos Bussade e Wanderlino Teixeira Leite Netto. Já falecidos, Abeylard Pereira Gomes, Aída Godinho e Fernando Elviro também deixaram sua participação. Certamente haverá outros que, no momento, me fogem à memória, rendidos a essa secular e sempre renovadora forma de composição poética.
Cabe, ainda, destacar os belos trabalhos de ilustração do artista plástico Miguel Coelho para haicais de Luís Antônio Pimentel, Jacy Pacheco e Paulo Roberto Cecchetti.
A cidade acolheu o haicai no evento “Japão: Ciência e Cultura em Niterói – 90 Anos de Imigração”, promovido pela Prefeitura Municipal de Niterói. Nove poetas apresentaram seus textos na Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) em 14/8/1998. Jacy Pacheco foi representado, in memoriam, por Wanderlino Teixeira.
Em outubro de 2001, Luís Antônio Pimentel e eu apresentamo-nos no Café Literário Fernando Pessoa (coordenado por Itérbio Galiano e Roberto Santos). O grande mestre abordou o haicai dos pontos de vista teórico e histórico. Eu li alguns haicais ilustrativos de diferentes temáticas e vertentes.
Recentemente, em 15 de novembro de 2003, no Espaço Cultural Niterói, ocorreu o 1˚ Encontro de Haicai de Niterói, do qual participaram poetas locais e visitantes como Olga Savary, da cidade do Rio de Janeiro, e Antônio Seixas, de Magé. Foi uma tarde de palestras, recital e concurso-relâmpago.
Como se pode perceber, em terreno fértil Luís Antônio Pimentel plantou a semente, e o haicai tem florescido em todas as estações.
Obras em que aparecem haicais dos autores citados:
1. Cardumes (1998, Bloch Editores, Rio de Janeiro); Quintal (1997, Traço & Photo, Niterói) – Paulo Roberto Cecchetti.
2. 100 Haicaístas Brasileiros (1990) – antologia publicada pela Aliança Cultural Brasil – Japão / Massao Ohno Editor, S. Paulo, com participação de Luís Antônio Pimentel, Lyad de Almeida, Neusa Peçanha, Paulo Roberto Cecchetti. Jacy Pacheco, Douglas Eden Brotto, Aída Godinho, Bernadete Soares.
3. Estações Interiores (1997); Na Trança do Tempo (2000) – Lena Jesus Ponte. Editoração Ltda., Rio de Janeiro.
4. Haicais (1981) – Jacy Pacheco. Editora Cultura Contemporânea, Rio de Janeiro.
5. Haicais (1999) – Leda Mendes Jorge. Graph Plus, Rio de Janeiro.
6. Lampejos (1998) – Sandro Pereira Rebel. Sol Nascente, Niterói.
7. Lua na Janela (1999) – Antologia do Grêmio Haicai Ipê, Edições Caqui, S. Paulo, com participação de Douglas Eden Brotto.
8. Mutações (1998) – Maria Apparecida Picanço Goulart. Sol Nascente, Niterói.
9. Poesia Budismo Haicai (1998) – Vinicius Sauerbronn de Mello. Gráfica Ferraz e Editora Ltda., Niterói.
10. Pra Lá das Estrelas (1993) – Moacyr Sacramento. Editora Cromos, Niterói.
11. Tankas e Haikais (1953) – Luís Antônio Pimentel. Impresso na Escola Industrial Henrique Laje, Niterói.
12. Tankas e Haikais (1961); Novas Tankas e Haikais (1964); Tankas e Haikais Selecionados (1974); Poesia-Síntese, Haikais & Outros Poemetos (1998, Editora Cromos, Niterói); Haikais (1992); Poesia-Síntese, Antologia (1992, edição do autor, Niterói); Novos Haikais (1994, edição da Livraria Ideal, Niterói); Mais Uma Vez Haicais (1995, edição da Livraria Ideal, Niterói) – Lyad de Almeida.
Lena Jesus Ponte
Verão de 2004.