UNIVERSO DO HAICAI


VOLTA

60 ANOS SEM MÁRIO DE ANDRADE


Discurso proferido na
Academia Mageense de Letras.

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.

Mário de Andrade
(A Costela de Grão Cão)

Mário de Andrade nasceu... Não, está errado! Quem nasceu na rua Aurora, n.º 320, em São Paulo, capital, a 09 de outubro de 1893, foi o pequeno Mário Raul de Morais Andrade, filho do “Seu” Carlos Augusto de Andrade e de D. Maria Luísa de Morais Andrade.

Importante se faz, nesse primeiro momento, situá-lo na história para melhor compreendê-lo. “Em 1893, ano do nascimento de Mário de Andrade, o país conheceu o levante da Armada (tão importante para a história de nossa cidade, que é apontada como marco de sua trajetória, culminando com o episódio dos Horrores de Magé) e a fama do Marechal Floriano se propaga até a posse de Prudente de Morais no ano seguinte. Canudos, o atentado contra Prudente, com o sacrifício do Marechal Bittencourt, em defesa do chefe de Estado (episódio marcante na vida do mageense Alcindo Guanabara, acusado de ser um dos mandantes do crime; o que lhe valeu a prisão na ilha de Fernando de Noronha), o governo de Campos Sales, a morte de Luís Guimarães, as Poesias de Alberto de Oliveira, o governo de Rodrigues Alves e as Poesias de Bilac não devem ter causado impressão ao menino Mário.

Já o adolescente terá acompanhado a campanha civilista de Rui Barbosa, o governo de Hermes da Fonseca, em 1910, com o episódio empolgante do marinheiro João Cândido comandando a revolta. Entrava ele na maturidade, quando se declara a guerra de 1914, com a propaganda dos aliados, Rui verberando a neutralidade brasileira em discurso famoso, afundamento de navios nossos, a entrada do Brasil em beligerância contra a Alemanha. A Revolução Comunista, no mesmo ano de 1917, só impressiona às pessoas enfronhadas no assunto, não há repercussão popular (de imediato). Em 1918, guerra terminada, o paulista Rodrigues Alves substitui o mineiro Venceslau Brás, na Presidência da República. Mas o velho político, elevado à Presidência, morre pouco depois, sendo substituído pelo Vice Delfim Moreira. A eleição de Epitácio Pessoa, que fora nosso representante na Europa, quando das negociações de pós-guerra, encontra o país agitado politicamente, conseqüência mediata da crise pós-guerra. Inicia-se, em 1922, com o levante da Escola Militar do Realengo e do forte de Copacabana, um período de verdadeira malária de revoluções, cujos acessos se vão manifestando – em 1924, na própria capital paulista, transferindo-se para os sertões do Paraná e daí por Mato Grosso, unidos aos remanescentes de um levante no Rio Grande do Sul, transformado na famosa Coluna Prestes. Artur Bernardes, sucedendo a Epitácio Pessoa, governa sob Estado de Sítio permanente. Em 1926, outro paulista substitui o mineiro e Washington Luís se elege para ser deposto por uma revolução chefiada por Getúlio Vargas. Guinchado ao poder, o líder gaúcho teve de enfrentar a Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932, e o Levante Comunista de 1935, até a declaração do Estado Novo, período ditatorial instaurado em 1937. Dois anos mais tarde começa a Segunda Grande Guerra, da qual o Brasil participa, como acontecera em 1917. Em 1944 partem para o teatro de operações as tropas brasileiras, constituindo a FEB, e em 1945 terminam as hostilizações, em maio. Mário havia morrido em fevereiro” (PROENÇA, 1978, 05), mas não nos antecipemos.

De sua infância e formação intelectual pouco foi registrado, sabendo-se que fez seus estudos primários no Grupo Escolar da Alameda do Triunfo, onde fôra matriculado em 1899. Ainda em São Paulo, cursou o secundário, atual Ensino Médio, no Ginásio N.ª S.ª do Carmo, de 1905 a 1909. Diplomou-se no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, em 1917, onde ingressara em 1911, para cursar piano e canto.

Segundo Celso Luft, “Mário de Andrade foi um dos escritores mais multiformes da literatura brasileira. Cultivou praticamente todos os gêneros. Foi poeta, romancista, contista, ensaísta, crítico literário e de arte, musicólogo e folclorista” (1973: 23).

Não podemos continuar discorrendo sobre Mário de Andrade, sem antes, lançarmos algumas luzes sobre o fenômeno que foi a Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922.

Como leciona Afrânio Coutinho, “a literatura “moderna”, no Brasil, é o que se denomina o Modernismo, termo que se vai fixando na historiografia literária para designar o período estilístico inaugurado com a Semana de Arte Moderna (1922) e vindo até os dias presentes” (1966: 247).

No início, o movimento foi sendo denominado “futurismo” e futuristas seus autores, porém a palavra passou a despertar a oposição dos intelectuais brasileiros que não aceitavam a confusão com movimento de Felippo-Tommaso Marinetti, poeta italiano. A própria designação da Semana de 1922, incluindo a palavra “moderna” já é um indício de que a outra não era aceita. Entre os percursores do modernismo brasileiro temos Lima Barreto, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Augusto dos Anjos, Adelino Magalhães, Simões Lopes Neto, Álvaro Moreyra, Rodrigo Otávio Filho... Sem dúvida, existem outros nomes, mas a lista se tornaria extensa e cansativa.

Wilson Martins, com acerto, nos diz que a Semana de 1922 é mais do que um ponto de partida, um resultado, um ponto de convergência e aglutinação de forças que se vinham constituindo e forcejavam por manifestar-se. Ela marcou, de fato, o primeiro encontro do modernismo com o público.

A Semana de Arte Moderna, originada de uma sugestão do pintor Di Cavalcanti a Paulo Prado, foi realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, sendo apenas um marco para a fixação de um movimento, que era antes um estado de espírito geral, e do qual participaram, por necessidade histórica, numerosos jovens intelectuais e artistas que viram a ter papel de relevo no Modernismo.

Seus organizadores, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Francesco Pettinati, Cândido Motta Filho, Paulo Prado, Graça Aranha, Afonso Schmidt, Goffredo da Silva Telles, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Luís Aranha, Oswald de Andrade e Rubens Borba de Moraes, sem esperarem uma fábrica de obras de qualidade ou usina de talentos, lançaram uma semente e um furacão, uma aposta no futuro e um grito.

Como bem apontou Federico Mengazzi, os protagonistas da semana que dividiu a cultura brasileira eram gente de seus 20 ou 30 anos, ligada aos setores médio ou aristocrático da sociedade. Um autor proletário como Afonso Schimdt não participou da ocasião. Artistas e escritores nas primeiras armas chegavam apenas aos 30 anos, ou nem isso. Sérgio Milliet tinha 23 anos; Di Cavalcanti, 24; Menotti Del Picchia e Ronald de Carvalho, 29; Guilherme de Almeida – nosso patrono na Academia Mageense de Letras –, 31; Oswald de Andrade e Anita Malfatti, 32; Villa Lobos, 34. E mais Mário de Andrade, 28, que se defenderia da acusação de se arvorar em chefe do movimento, embora o seja, ao menos, no plano moral. Tarsila do Amaral, 35 anos, não participou da Semana, pois estava em Paris.

De outra geração, Paulo Prado, de 52 anos, e Graça Aranha, de 53, apadrinharam a Semana. Paulo Prado, ao lado de Rene Thiollier, era um próspero homem de negócios, enquanto Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras, emprestou ao movimento sua coragem de romper com o passado, com a sua geração, incorporando-se aos jovens, chamando para eles a atenção do público. Foi um animador, a cujo entusiasmo muito deve o movimento na sua fase demolidora de tabus e preconceitos estéticos, ficando célebre sua batalha dentro da Casa de Machado de Assis – a Academia Brasileira de Letras – pela defesa dos ideais modernistas.

A Semana de Arte Moderna e seus personagens são dignos de páginas próprias, em um momento mais oportuno. Por isso, retomemos Mário de Andrade.

Entre versos declamados sob vaias arranjadas por Oswald de Andrade, para todos que se apresentavam, e sua palestra sobre estética nas escadarias do Teatro Municipal da capital paulista, Mário de Andrade ousou sentenciar: “tudo quanto fez o movimento modernista far-se-ia da mesma forma sem o movimento”, consciente do papel de sua geração. Depois da Semana de 22, diversos grupos despontaram no cenário cultural brasileiro. Os apresentaremos apenas a título de curiosidade:

a) Dinamistas, do Rio de Janeiro, com Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida;

b) Primitivistas, de São Paulo, com Oswald de Andrade e Raul Bopp;

c) Nacionalistas, de São Paulo, com Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia;

d) Espiritualistas, com Tasso de Silveira (objeto da palestra do confrade Inaldo Alonso) e, tardiamente, Cecília Meirelles;

e) Desvairistas, inspirado por Mário de Andrade, a que se ligaram numerosos intelectuais. Batia-se pela liberdade de pesquisa estética, pela renovação da poesia e pela criação da língua nacional.

Dessa feita, “o modernismo foi um grande estuário de tendências e seus resultados mostram que se reconquistou o equilíbrio entre a continuidade e inovação, entre a tradição e a revolta” (COUTINHO, 1966: 309/310).

Além de professor de piano, colaborador de jornais, funcionário público, o autor de Paulicéia Desvairada colaborou na organização do Departamento Municipal de Cultura da prefeitura de São Paulo, do qual foi o primeiro diretor, de 1934 a 1937. Em sua gestão batalhou principalmente para a educação infantil, a divulgação artística e a reforma da educação e do ensino musical.

Em 1937 promoveu o I Congresso da Língua Nacional Cantada e, no ano seguinte, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde foi crítico literário e professor catedrático de estética e diretor do Instituto de Artes da UNIRIO. È ainda dessa época, o anteprojeto de sua autoria com Paulo Duarte, que deu origem ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual IPHAN.

Em 1940, voltou para São Paulo, como funcionário do Serviço do Patrimônio Histórico, onde faleceu aos cinqüenta e um anos, vítima de enfarto, no dia 25 de fevereiro de 1945, há precisamente 60 anos. Num poema pedira:

Meus pés enterrem na rua Aurora,
Na Paissandu deixem meu sexo.
............................................
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam
No pátio do colégio afundem
O meu coração paulistano...

Uma vida tão curta, mas de uma produção intensa. Dentre suas obras destacamos:

. Poesia: Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia desvairada (1922); Losango Cáqui (1926); Clã do Jabuti (1927); Remate de Males (1930); Poesia (1941); Lira Paulistana (1946).

. Contos: Primeiro andar (1926); Belazarte (1934); Contos novos (1946). . Romance: Amar, verbo intransitivo (1927) e Macunaíma (1928).

. Ensaio: A escrava que não é Isaura (1925); Aleijadinho e Alvares de Azevedo (1935); Música do Brasil (1941); O movimento modernista (1942); o empalhador de passarinhos (1944).

Além de um sem número de cartas, boa parte delas inédita ainda hoje. Todavia, não nos antecipemos. Sua obra completa foi publicada pela Ed. Martins, em 1944, comportando 20 volumes e, em 1972, pela mesma editora, saem as “Poesias Completas” de Mário de Andrade.

É possível distinguir 3 fases na obra do papa do modernismo: a primeira, foi o delírio modernista, onde se dá a fundação teórica e realização prática. Vai de 1922 até 1926. A segunda, é o descobrimento do País, do nacionalismo pitoresco e do folclore. São dessa fase “O Clã do Jabuti” e “Macunaíma”. O terceiro período, a sua arte interioriza-se e amadurece pela meditação, torna-se mais serena e mais profunda. Nessa fase, o nacional, o folclórico, o coletivo fundam-se com o pessoal, o individual, numa solução estética muito original e que a transforma em inconfundível.

Oportuno também é traçar um painel, expondo alguns aspectos de suas principais obras:

a) “Há uma gota de sangue em cada poema” é o livro de estréia. Feito sob o impacto da Primeira Guerra Mundial, apresenta poucas novidades estilísticas. Poucas, mas suficientes para incomodar a crítica mais acadêmica, que não gostou do livro.

b) “Paulicéia desvairada” veio repleto de inovações que logo transformaram o livro numa espécie de ponto de referência obrigatório para os modernistas. Além disso, traz o “Prefácio Interessantíssimo”, no qual Mário de Andrade expôs sua teoria poética, denominada desvairismo, que nos pede um momento de reflexão.

Alfredo Bosi leciona que “o roteiro de Mário de Andrade diz bem de um artista de 1922 cuja poética oscilou entre as solicitações da biografia emocional e o fascínio pela construção do objeto estético. A Paulicéia desvairada abre-se com um “Prefácio Interessantíssimo” em que o poeta declara ter fundado o desvairismo: nessa poética aberta há afinidades com a teoria da escrita automática que os surrealistas pregavam como forma de liberar as zonas noturnas do psiquismo, únicas fontes autênticas de poesia. Ao citado inconsciente viriam depois juntar-se as vozes do intelecto (e cita Mário de Andrade): ‘Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. (...) Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízos de medir tantas sílabas, com acentuação determinada’” (1970: 391).

Em resumo, Mário de Andrade defendia a poesia como operação artística, ligada à disciplina formal. A inspiração deve seguir-se o trabalho da arte, que consiste em moldar o poema livre de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis e inexpressivos.

c) Em “Losango Cáqui” encontramos o cotidiano de sua vivência transformada em poesia, ou nas palavras do próprio autor, “sensações, idéias, aliterações, brincadeiras, liricamente anotadas.

d) “Clã do Jabuti” resulta das viagens culturais do autor, que vale-se do folclore, de costumes e linguagens regionais, numa tentativa de analisar a diversidade cultural do Brasil.

e) “Remate de males” apresenta poemas líricos que expressam o mundo interior do poeta, dando seqüência à temática principal de “Clã do Jabuti”. f) “Amar, verbo intransitivo”, publicado em 1927, causou furor na sociedade paulistana quando o autor desmascarou o convencionalismo da burguesia local. A história que serve de veículo a este objetivo é a de um rico industrial que contratou uma governanta para ensinar alemão aos filhos. Na verdade, essa tarefa era apenas uma fachada para sua verdadeira missão: a iniciação sexual de Carlos, filho mais velho do industrial.

g) “Macunaíma”, publicado em 1928, é a obra mais importante de Mário de Andrade. “Romance, epopéia, folclore, rapsódia, a obra é a história do “herói sem nenhum caráter”, com as virtudes e os defeitos que o autor via no brasileiro, numa soma de traços reais, mitológicos e históricos” (LISBOA, 1986: 133). Mas não é só isso, “o livro serve para expressar as idéias do autor contra a industrialização e europeização do país” (PERKINS, 2003: 156). Assim, para Mário de Andrade “o verdadeiro Brasil e seu povo só se afirmariam assumindo sua real personalidade, aceitando-se com suas qualidades e limitações” (LISBOA, idem).

Como se pode ver, Mário de Andrade foi um intelectual polimorfo, um dos mais importantes poetas da primeira geração modernista; também é dos mais representativos ficcionistas, ensaístas, pesquisadores e críticos brasileiros. Tão múltiplo foi Mário de Andrade que muitas de suas facetas são pouco ou nada conhecidas pelos brasileiros em geral.

Já que estamos numa cidade de nítida tradição trovista, às portas dos festejos pelos 40 anos do livro “Trovadores Mageenses”, organizado pelo acadêmico Adolfo Macedo e lançado em 02 de outubro de 1965, não poderíamos omitir que o papa do modernismo, como poeta, foi também trovador e trovador do mais alto espírito.

Em seu exercício como folclorista, Mário de Andrade coletou diversas trovas populares, como esta, publicada em seu livro “Namoros com a medicina” (1939):

Maria atravessou o regato,
Molhou a barra do vestido.
Na água deixou o retrato
De tudo o que estava escondido.

De sua verve, encontramos inseridas em suas obras várias trovas intencionais, como estas:

Eu peno todas as dores
Com este amor que Deus me deu.
Quem achou os seus amores
A si mesmo se perdeu.

***

Teu sorriso é um jardineiro,
Meu coração é um jardim.
Saudade! Imenso canteiro
Que eu trago dentro de mim.

Mário de Andrade filiou-se ao Partido Democrático em 1928, apresentando em sua produção literário obras engajadas (“O carro da miséria”, “Lira Paulistana”, p. ex.), onde “sacrificou a forma poética em benefício de uma imposição ideológica: a consciência explícita de um ser problemático que se insere no mundo conflitante das lutas de classe” (NETTO, 1993).

Além das obras acima mencionadas, no seu livro de contos “Belazarte” (1934), a escolha do assunto predominante – o proletariado em seu problemático dia-a-dia – mostra a preocupação do autor na denúncia das desigualdades sociais.

Também o autor de Macunaíma rendeu-se ao academicismo, tantas vezes combatido pelos intelectuais da geração de 22. Em 1937, Mário de Andrade foi eleito membro titular da Academia Paulista de Letras, para ocupar a cadeira n.º 03, patronímica de Matias Aires. E, em 1945, entre as homenagens póstumas, foi escolhido como patrono da cadeira n.º 40 da Academia Brasileira de Música, no Rio de Janeiro (RJ).

O autor de Macunaíma foi um homem de profunda religiosidade. Isso mesmo: Mário de Andrade era Católico e um cristão dos mais devotos. Senão vejamos: Em 1905 ingressa no ginásio N.ª S.ª do Carmo, dos irmãos maristas, que o influenciarão por toda a vida. Em 1913 participa das comemorações do 4.º aniversário da Congregação da Imaculada Conceição, na igreja de St Efigênia, tocando Schubert. Como congregado mariano, em 1916, pede permissão ao Vigário Geral do Arcebispado de São Paulo para ler livros do Índex: Flaubert e Heine. Em 1918 pede admissão ao noviciado da Venerável Ordem Terceira do Carmo, recebendo diploma de membro da Congregação Mariana de N.ª S.ª do Carmo. No ano seguinte inicia o noviciado na Ordem do Carmo, onde a 19 de março de 1920, profere sua profissão como irmão. A partir de 1921 volta a morar com a mãe, viúva desde 1917. Na condição de carmelita, mesmo afastado por vontade própria da congregação, Mário de Andrade não poderia contrair núpcias ou alimentar esperanças de mulheres como Anita Mafalti, que por muitos anos foi apaixonada pelo pai do modernismo brasileiro e que se queixava com os amigos comuns do comportamento reservado do autor.

Um capítulo à parte em sua produção literária sem fronteiras é constituído pela correspondência volumosa e cheia de interesse, ininterruptamente mantida com intelectuais como Alceu Meyer, Carlos Drumonnd de Andrade, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Sérgio Milliet, Fernando Sabino etc.

Sobre Mário de Andrade missivista escreveu o mageense, mestre e doutor em comunicação e cultura, professor catedrático da UFRJ, Newton Paulo Teixeira dos Santos: “Mário cultivava amizades escrevendo cartas. Suas cartas eram valvas aórticas por onde seu coração jorrava a grandeza que possuía” (1994: 81).

Em testamento Mário de Andrade determinou que todas as cartas por ele recebidas deveriam permanecer lacradas durante 50 anos a contar de sua morte, a fim de poupar os amigos de possíveis indiscrições.

Quanto a sua correspondência ativa, vem sendo entregue ao público aos poucos, como vimos Fernando Sabino fazer há alguns anos, com o livro “Cartas a um jovem escritor”. Seus amigos, porém, as vêm publicando com cortes, a fim de evitar constrangimentos para Mário de Andrade e seus herdeiros, em razão da profunda intimidade que o autor se entregava quando as escrevia. “Há, portanto, na correspondência já publicada de Mário, muitos aspectos preservados, não só pela lei, como pelas normas éticas que devem pautar o nosso comportamento, normas que têm sido cumpridas pelos amigo”, observa Newton Paulo Teixeira dos Santos (1994: 93).

A partir da morte de Mário de Andrade, em 1945, até hoje, perfazem 60 anos em que a literatura brasileira vem sendo agitada com altos e baixos. Vimos o surgimento de poetas como Cecília Meireles, Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Clarisse Lispector, João Cabral de Mello Neto e de ficcionistas como Sérgio Porto e José Lins do Rego, sendo estes patronos e patronesses da Academia Mageense de Letras, além de outros como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa e Jorge Amado.

1960 representa o surgimento de diversas tendências na literatura brasileira, que nos autorizam falar agora em “pós-modernismo”. Dentro dessas tendências temos, na poesia, o concretismo, a poesia-práxis, o poema/processo, a poesia social, o tropicalismo, a poesia marginal, o trovismo, a poesia síntese e, na prosa, a valorização do conto e da crônica, graças a Autran Dourado, Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, Nélida Piñon, Nelson Rodrigues, Hilda Hilst, Roberto Drumonnd, Fernando Sabino, Rubens Fonseca, Rubens Braga e tantos outros intelectuais brasileiros.

Não poderíamos encerrar estas palavras sem evocar o sentimento que pairou sobre a sociedade brasileira com a morte de Mário de Andrade. Para isso, recorremos as vozes de dois pilares de nossa poesia moderna: Manoel Bandeira e Carlos Drumonnd de Andrade.

O primeiro nos fala

“A MÁRIO DE ANDRADE AUSENTE
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.”

para o segundo arrematar,

"MÁRIO DE ANDRADE DESCE AOS INFERNOS
III
O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos,
na serrania mineira,
no mangue, no seringal,
nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,
nas regiões inventadas,
países a que aspiramos,
fantásticos,
mas certos, inelutáveis,
terra de João invencível,
a rosa do povo aberta...”

Como disse Shakespeare, “o resto é silêncio”. Muito obrigado a todos!

REFERÊNICAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. ANDRADE, Carlos Drumonnd de. Rosa do Povo. São Paulo: Record, 1995;

2. BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. São Paulo: Record/Altaya, 1999;

3. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970;

4. COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria S. José, 1966;

5. GRIECO, Agripino. Poetas e prosadores do Brasil. Rio de Janeiro: Conquista, 1968;

6. LEITE, Paulo Moreira (org.). 80 Anos de Revolução. Revista Época, 04 de fevereiro de 2002, ano IV, n.º 194 (edição especial);

7. LIMA, João Gabriel de & SANCHES, Neuza. O Brasil que chegava pelo Correio. Revista Veja, 06 de agosto de 1997, Ano XXX, n.º 31, Ed. 1507, p. 132 a 138;

8. LISBOA, Luiz Carlos. Pequeno guia da literatura universal. Rio de Janeiro: forense Universitária, 1986;

9. LUFT, Celso Pedro. Dicionário de literatura brasileira. Porto Alegre: Globo, 1973;

10. NETTO, Amador Ribeiro. A Poesia de Mário de Andrade: pé dentro, pé fora. 1993. In: http://www.secrel.com.br/jpoesia/a2ribeiro04c.html. (acessado em 13 Dez. 04);

11. PERKINS, Christine N. 100 autores que mudaram a história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003;

12. PROENÇA, M. Cavalcanti. Mário de Andrade. 4 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978;

13. SANTOS, Newton Paulo Teixeira dos. A carta e as cartas de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Diadorim, 1994;

14. SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964;

15. WANKE, Eno Teodoro. A trova literária. Rio de Janeiro: Folha Carioca, 1976.

Antônio Seixas
Magé (RJ), 19 de fevereiro de 2005.