UNIVERSO DO HAICAI
Em toda a alma de poeta há um templo e um crente.
Alberto de Oliveira
1. Apresentação.
Grande poeta místico, nas palavras de Guilherme de Almeida, prefaciador dos livros Litanias (1949) e Vitrais (1963), Primo Vieira, sacerdote, haicaista, professor, cronista, ensaísta, tradutor, biógrafo, crítico e teórico literário, nos deixou a dez anos, enquanto excursionava pela Europa.
Percursor do Haicai no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, Primo Vieira foi exemplo de católico devotado e haicaista apaixonado, não se limitando a usar do Haicai para dar vida a sua verve mas, refletindo sobre ele, em diversos artigos e ensaios, para compreendê-lo e divulgá-lo.
Que os leitores em geral possam recebê-lo de coração e braços abertos, prontos a mergulhar em sua vida e obra.
2. Dados biográficos.
Em razão das dimensões desse ensaio, nos limitaremos a detalhar os eventos mais relevante na vida de Mons. Primo Vieira.
2.1 – Datas importantes.
. 1919 (11 de junho) – Nasce na cidade de Romaria, diocese de Uberaba, no Triângulo Mineiro, Primo Neves da Mota Vieira ou, simplesmente, Primo Vieira;
. 1944 (08 de dezembro) – Ordenação Sacerdotal, na Catedral de Santos (SP), por D. Idílio José Soares, Bispo diocesano;
. 1994 (22 de julho) – Falece na cidade portuguesa da Fátima, vítima de ataque cardíaco, sendo sepultado em Santos (SP).
2.2 – Vida familiar.
. Filiação: Helena Neves Vieira e José Maria Vieira.
2.3 – Formação.
Durante toda sua vida, o autor de Hospedes do tempo foi um estudioso exemplar, como demostra a relação de cursos que freqüentou: Curso primário, em Grupiara, município mineiro de Estrela do Sul; Curso de Humanidades, no Seminário Diocesano de Botucatú (SP), 1937; Curso de Filosofia, no Seminário Central de Ipiranga (SP), de 1938 a 1940; Curso de Teologia, no Seminário Central de Ipiranga (SP), de 1940 a 1944; Bacharelado em Direito, na Universidade Federal de Goiás, 1970; e, Doutorado em Letras, Universidade de São Paulo (1973).
3. Atividades.
3.1 - Sacerdotais.
Após sua ordenação sacerdotal, em 1944, Mons. Primo Vieira exerceu as seguintes atividades, na Igreja Católica:
I. em São Paulo: Vigário Cooperador da Matriz de São José do Macuco; Pároco em Cubatão; Professor de Literatura e de Teologia no Seminário Central de São Paulo; Pároco da Matriz de são José do Macuco; Vigário Geral da diocese de Santos; Procurador da Mitra diocesana de Santos; Diretor do jornal católico “Santos – Jornal”; Professor de religião na Faculdade Católica de Direito de Santos; Cura da Catedral de Santos; Pároco da Igreja do Carmo, em Santos; Pároco da Igreja do Coração de Jesus, em Santos; e, Vigário Geral da diocese de Santos.
II. em Goiás: Diretor Arquidiocesano do ensino religioso; Pároco substituto da Catedral de Goiânia; Pároco da Igreja de Nossa Senhora das Graças, em Goiânia; Professor de doutrina social, no Seminário Santo Cruz; Membro do Conselho Pastoral da Arquidiocese de Goiânia; Juiz Pro-Sinodal; Capelão do Colégio Assunção; e, Vigário Geral da Arquidiocese de Goiânia.
3.2 – Intelectuais.
Como intelectual e professor que era, Mons. Primo Vieira desenvolveu as seguintes atividades: Diretor-fundador da universidade Católica de Santos (SP); Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Goiás; Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Letras, da universidade Federal de Goiás; Vice-Presidente da Sociedade Visconde de são Leopoldo, de 1957 a 1961, mantenedora das Faculdades Católicas de Santos (SP); Vice-Presidente da Sociedade Goiana de Cultura, de 1980 a 1981, mantenedora da Universidade Católica de Goiás; Verificador para reconhecimento em plano nacional dos cursos de mestrado e doutorado da Universidade de São Paulo, para Literatura Portuguesa; e, Vice-Presidente da Sociedade São Leopoldo, de 1988 a 1994.
4. Instituições culturais.
O autor de O verso e a subversão do verso pertenceu aos seguintes Cenáculos: Academia Goiana de Letras, cadeira Ricardo Paranhos; Academia Santista de Letras, cadeira Martins Fontes; Academia Paulista de Letras, cadeira Pe. José de Anchieta; Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; Instituto Histórico e Geográfico de Santos; e, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
5. Bibliografia.
Em vida, Mons. Primo Vieira publicou os seguintes livros:
a) Litanias (1949), poesia;
b) Penumbra votiva (1951), poesia;
c) Elevações Marianas (1953), crônicas;
d) Cromos infantis (1955), poesia;
e) Prece do Ângelus (1955), crônicas;
f) Vitrais (1963), poesia;
g) Estrelas de rastros (Haicais, 1964), poesia;
h) Borboletas Brancas (Haicais, 1967), poesia;
i) Postais antigos (1967), poesia;
j) Hospedes do tempo(1978), crítica literária;
k) Pirilampos (Haicais, 1978), poesia;
l) O céu é dos pequenos (1978), poesia;
m) O verso e a subversão do verso (1979), teoria literária;
n) Como é bom ser bom! (1984), estudo sobre Martins Fontes;
o) Cônego José Amaral Melo (1986), biografia;
p) Poemas franciscanos (1987), poesia;
q) Palhas de Arroz (Haicais, 1994), tradução dos poemas de Matsuo Bashô.
Além de um sem-número de artigos, ensaios, estudos e críticas publicados em jornais e revistas universitárias de São Paulo, Santos, Goiânia, Rio Grande do Norte e Lisboa, nas áreas de literatura e religião.
6. Estudo crítico.
Enquanto a humanidade testemunhava a consolidação do papel hegemônico dos EUA, como principal potência e eixo organizador do mundo capitalista do século XX, a partir da 1.º Guerra Mundial (1914-1918), a ponto de se falar no surgimento do “Império Americano”, nascia Mons. Primo Vieira, testemunha de todas as revoluções suscitadas ao longo do século.
E no bojo dessas revoluções, também ele fez a sua, ao ser o primeiro sacerdote católico a dedicar-se ao estudo e composição da Haicai, num período em que a intelectualidade brasileira deixava de compreendê-lo como fruto da inspiração zen-budista, para aproximar-se do modelo guilhermino: a iluminação zen cedia espaço para a anotação poética e sincera de um momento de elite (ALMEIDA, 1976, 44).
Finalmente, aproximando-se da incorporação do “termo-de-estação” (quigo) ao poema em abrasileiramento, legou-nos a tradução mais fiel ao espírito de Matsuo Bashô (1644-1694), ao verter os Haicais do fundador da Escola Shômon para o português.
Por essa e outras realizações é que Mons. Primo Vieira será sempre lembrado como um sacerdote de escol e haicaista do mais elevado espírito.
7. O Haicaista.
Especializado em poesia japonesa, notadamente o Haicai, Mons. Primo Vieira participou dos Encontros Brasileiros de Haicai, realizados em São Paulo desde 1986, chegando a fazer parte do corpo de jurados, no 4.º Encontro, em 1989, além de ter sido incluído como colaborador sobre poesia japonesa em dois grandes dicionários de Literatura Portuguesa: “Dicionário de Literatura Portuguesa, Galega e Brasileira”, de Jacinto do Prado Coelho e no “Dicionário de Literatura Portuguesa e Teoria Literária’, de João Cochfel.
Entre seus estudos, destacamos:
1. Considerações sobre o Haicai (1965);
2. Notícias portuguesas do Haicai (1971);
3. A propósito do Haicai (1979);
4. Influência da Poesia Oriental na Literatura Luso-Brasileira: O Haicai (1989).
7.1 – Alguns Haicais.
Autor de quatro livros dedicados ao Haicai, menor cálice em que se saboreia a poesia, citamos estes como exemplos de sua verve:
Marulhos de vagas.
Há ecos de eternidade
Nos búzio do mar.
Pelas mãos do vento
Deus colhe flores no campo.
Que festa há no céu?
Admirador confesso do poeta paulista Guilherme de Almeida (1890-1969), também dedicou-se a prática do Haicai-guilhermino, com tanto engenho que obteve resultados do mais elevado espírito:
PAZ
- Que inveja me dás
Ermida no monte erguida
Comungando paz!
Diante de todas as particularidades que constituem o Haicai e que o distingue das demais formas poéticas, traduzi-lo representa uma tarefa árdua, cabendo apenas a um poeta (haicaista), conhecedor perfeito das duas línguas (original e traduzida) (GOGA, 1988, 58), para nos proporcionar uma tradução carregada com as características do original e com valor para ser apreciado como poesia, na língua na qual foi vertida.
Nesse sentido, grande desafio se revela a tradução dos versos de Matsuo Bashô, responsável pela dinamização da poesia nipônica. Basta lembrar que ele não rompe com a tradição, mas segue-a de uma maneira inesperada; ou, como ele mesmo diz: “não sigo o caminho dos antigos: busco o que eles buscaram”. Bashô aspira a expressar, com meios novos, o mesmo sentimento concentrado da grande poesia clássica. Assim, transforma as formas populares de sua época em veículos da mais alta poesia (PAZ, 1976, 156).
A grande importância de Bashô está no fato de ter dado novo sentido ao conteúdo da poética japonesa. Quando começou a escrever, a poesia tinha se convertido em passatempo: o poema queria dizer poesia cômica, epigrama ou jogo de salão. Bashô recolhe esta nova linguagem coloquial, livre e desimpedida, e com ela procura o mesmo que os antigos: o instante poético. O Haiku (Haicai) transforma-se e converte-se na anotação rápida - verdadeira recriação – de um momento privilegiado (PAZ, 1976, 159).
Uma das primeiras tentativas de trazer a poética de Bashô aos brasileiros, foi empreendida pela escritora Olga Savary, em fins da década de 1980. Porém, para fazê-la, lançou mão de traduções do japonês para o inglês e o espanhol, não fazendo uso do sistema métrico tradicional (5-7-5) para os poemas. Prejudicado, de certo modo, o haimi (essência) dos poemas, são válidos apenas por serem traduções literais.
Iniciativa distinta teve Mons. Primo Vieira que, contando com a ajuda de uma tradutora que verteu do japonês palavra por palavra, o poema em sua forma original, converteu as referências traduzidas para o entendimento da natureza do Haicai em nossa cultura.
Dessa feita, o autor de Prece do Ângelus, mantendo-se fiel ao espírito do texto original, deu à tradução a feição métrica dos versos de 5-7-5 sílabas poéticas, para preservar a essência da tradição nipônica, adaptando-a a brasileira, a fim de nos permitir ouvir a voz de Bashô, tanto anos depois do seu desaparecimento.
8. Viagens.
Mons. Primo Vieira empreendeu diversas viagens a Portugal, primeiramente em missão de estudos universitários para elaboração de sua tese sobre “A Virgem Maria na obra do Pe. Manuel Bernades – aspectos doutrinários e estilísticos”, para efeito de doutoramento em Letras pela USP.
Foi, ainda, por duas vezes bolsista da Fundação Guldenkian, em Lisboa, para especialização em Literatura Portuguesa.
Sua derradeira viagem ocorreu em 1994, quando em peregrinação pela cidade de Fátima, veio a falecer.
9. Agradecimentos.
Não poderíamos chegar ao fim do presente estudo sem antes agradecer a Cúria Diocesana de Santos (SP), nominalmente as funcionárias Ana Maria Alves Ribeiro e Ruth Rodrigues Prates, a Academia Goiana de Letras (GO), na pessoa de seu Presidente, acadêmico Coelho Vaz, e aos poetas Douglas Éden Broto (RJ) e Francisco de Assis Nascimento (GO), pelo apoio.
10. Referências Bibliográficas.
1) ALMEIDA, Guilherme. Poesia Vária. São Paulo: Cultrix, 1976;
2) ARQUIVOS da Academia Goiana de Letras (GO);
3) ARQUIVOS da Cúria Diocesana de Santos (SP);
4) BASHÔ. Palhas de Arroz. Trad. Mons. Primo Vieira. São Paulo: Massao Ohno Editor/Aliança Cultural Brasil-Japão, 1994;
5) GOGA, H. Masuda. O Haicai no Brasil. São Paulo: Oriento, 1988;
6) PAZ, Octávio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1976;
7) SAITO, Roberto et. al. 100 Haicaistas Brasileiros. São Paulo: Massao Ohno Editor/Aliança Cultural Brasil-Japão, 1990;
8) SENEGAL, Humberto et al. Antologia do Haicai latino-americano. São Paulo: Massao Ohno Editor/Aliança Cultural Brasil-Japão, 1993.
Magé (RJ), 31 de dezembro de 2004.
Na festa de São Silvestre.
Antônio Seixas
07 de fevereiro de 2005.