UNIVERSO DO HAICAI
No que tange a topografia do Haicai, analisaremos seu esquema de conteúdo. OTÁVIO PAZ leciona que "do ponto de vista formal, o haiku divide-se em duas partes: uma da condição geral e da ubiguação temporal ou espacial do poema (outono ou primavera, meio-dia ou entarceder, uma árvore ou um rochedo, a lua, um rouxinol); a outra, relampagueante, deve conter um elemento ativo. Uma é descritiva e quase enunciativa: a outra, inesperada; a percepção poética surge do choque entre ambos" (Signos em rotação. 2.ª ed. São Paulo: Perspectiva, l976, p. 163).
Por essa teoria, temos a consagração da estruturação do Haicai por justaposição de imagens, apoiando-se, basicamente, nos substantivos e nos verbos as partes do poema.
PAULO FRANCHETTI comenta, quanto a utilização da justaposição, que esta é "a colocação, lado a lado, de estruturas verbais desprovidas de nexos sintáticos explícitos entre si, de modo que o leitor tenha de descobrir a relação entre elas. No entanto, a especificidade do haikai não está apenas na justaposição, pura e simples. Essa é a forma, por assim dizer, externa da articulação do haikai. O que o define é a atitude que embasa a escolha e a apresentação dos termos justapostos. Essa atitude consiste na busca de uma percepção muito ampla ou intensa por meio de uma sensação" (Prefácio. In: Goga, H. Masuda; Oda, Teruko; Arruda, Eunice. Haicai - a poesia do Kigô. São Paulo: Massao Ohno/Aliança Cultural Brasil-Japão, l995, ps. IX e X). Desse modo, há uma preocupação de que o Haicai não se torne um mero dístico com título, onde o primeiro verso atue como indicador do assunto, do tema, mas faça parte do todo.
Pode-se concluir, então, que ao compor Haicais, devemos nos ater a três questionamentos: "o que", "onde" e "quando", dessa maneira: o foco do Haicai; a localização espacial do Haicai, pois o poema nasce de uma experiência física concreta; e a época em que é escrito, através do emprego do termo-de-estação.
Um esquema prática do que foi esposado até aqui nos é apresentado por PAULO LEMINSKI que analisa verso a verso, nestas palavras: "o primeiro verso expressa, em geral, uma circunstância eterna, absoluta, cósmica, não-humana, normalmente uma alusão à estação do ano, presente em todo Haicai. (...) O segundo verso exprime a ocorrência do evento, o acaso da acontecência, a mudança, a variante, o acidente casual. (...) A terceira linha representa o resultado da interação entre a ordem imutável do cosmo e o evento. Não é uma conclusão lógica: parte de uma obra de arte, é o membro de um poema" (Vida. 2.ª ed. Porto Alegre: Sulinas, 1998, ps. 77 e 78).
Antônio Seixas
Outono de 2004.