UNIVERSO DO HAICAI


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COMENTÁRIO GERAL

CECIM MERGULHA NO UNIVERSO DO HAI - KAI


Publicado no Seleções em Folha,
Ano 8, Nº 03, março de 2004,
direção: Manuel Fernandes Mendez

Desvendar os segredos do hai-kai e do renga, dois modos de criação poética tipicamente orientais, é a proposta do escritor paraense Vicente Franz Cecim durante a oficina de criação literária ministrada no Instituto de Artes do Pará (IAP). Direcionada a escritores e estudiosos de literatura, a oficina vai promover uma viagem pela cultura oriental, destacando aspectos da religião, da filosofia e da estética, além de permitir a experimentação no processo criativo de poemas breves e concisos, que captam imagens de um determinado momento, como o flash de uma máquina fotográfica. “É possível estimular a criação e a originalidade através de mecanismos que podem ser acionados. É como ligar as musas inspiradoras na tomada”, diz o escritor, que teve sua mais recente obra, “Ó Serdespanto”, considerada pela crítica portuguesa como o segundo melhor livro de 2001. Vicente Cecim explica que o hai-kai é uma espécie de “iluminação instantânea”, que revela um aspecto misterioso, secreto e poético da vida. Em sua estrutura original constam 17 sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco. Basicamente relaciona dois elementos básicos: um de condição geral, como uma estação do ano) e outro de transformação (a percepção momentânea de um fato). No livro “A Arte no Horizonte do Provável”, Haroldo de Campos diz que o Ocidente “descaracterizou essa composição epigráfica, tirando-lhe a linguagem altamente concentrada e vigorosa” e tornando o hai-kai uma “poesia de pó de arroz”. De fato, o hai-kai tem uma estrutura gráfica e semântica que, na língua japonesa, chegam a um ápice de rendimento. Mas é justamente esse o desafio dos poetas ocidentais: ser capaz de colocar emoção em apenas três versos que, juntos, somam dezessete sílabas. São muitas as dificuldades para um tradutor de hai-kai que pretenda ser fiel ao texto original. Primeiro porque os ideogramas japoneses são sinais gráficos que representam idéias. Traduzidos, os vocábulos ou ultrapassam ou ficam aquém das 17 sílabas do hai-kai. Além disso, as palavras japonesas contidas nos ideogramas possuem ressonâncias típicas para demonstrar certos estados da alma.

Renga – Surgido no século XVI, o renga é um poema em cadeia, uma sucessão de estrofes que se relacionam, sendo que a primeira é escrita por um poeta, a seguinte por outro, e assim diante. Esse diálogo poético, em suas origens, se caracterizava pelo tom jocoso. Tempos depois, o renga tomou duas direções paralelas: uma de nível artístico, criando uma arte apurada, e outra mais popular, de tom brejeiro e cômico. Mas seja nobre ou popular, o renga é sempre realizado coletivamente, por autores e apreciadores, sem que haja um tema a ser desenvolvido: o importante é dar vazão ao fluxo constante de belas imagens que se sucedem indefinidamente. O hai-kai nasceu do desinteresse pelo renga, cujas estrofes sucessivas eram independentes entre si. Coube ao mestre Basho disseminar o hai-kai no século 18, tendo como precursores Sokan e Moritake. Depois, outros haikaistas continuaram a tradição de Basho, como Kikaku, Buson e Issa. No início, o hai-kai era visto como algo erudito e de técnica mais exigente, como uma arte nobre, de difícil acesso aos mortais. A partir de Basho, a simplicidade e a beleza do hai-kai, privilegiando aspectos do cotidiano e a observação da vida a partir de uma filosofia zen, conquistaram os poetas japoneses.

Basho – Pseudônimo de Matsuo Munefusa, Basho era filho de samurais agricultores, e aos 23 anos de Kitamura Kigin, que na época já iniciava as transformações do hai-kai. Depois criou sua própria escola literária, e durante muitos anos deixou de ter residência fixa para viver viajando e recitando seus versos. Suas viagens foram registradas no livro “Senda estreita do fim do mundo”. Basho consagrou sua vida inteira à poesia, à contemplação da natureza e à admiração dos simples, num esforço contínuo de espiritualização e aperfeiçoamento do haikai. Guilherme de Almeida e Afrânio Peixoto são apontados como os introdutores do hai-kai no Brasil. Em 1947, Guilherme de Almeida acrescentou-lhe a rima. Outros escritores dedicaram-se ao estudo e à composição do hai-kai, como Haroldo de Campos, Millor Fernandes, Paulo Leminsky, Alice Ruiz e Olga Savary. Com a naturalização do hai-kai em terras brasileiras, o poema japonês perdeu muitas de suas características próprias: ganhou título e rima, não se prendeu às estações do ano e deixou de lado a impessoalidade do autor. Existe hoje no Brasil uma grande produção de hai-kais em japonês, organizada por grupos de estudiosos e registrada em publicações regulares.

Seleção Nato Azevedo

Verão de 2004.